Notícia
01/10/2013

São Pedro de Alcântara tem recanto de artistas

Fotos Rosane Lima/NDSilvio Pléticos trabalha no Centro de Artes e Ofícios de São Pedro do Alcântara

 

 

 

É na mente inquieta do artista que a obra passeia antes de ser materializada. Os direcionamentos que a peça anseia são entendidos pelo autor durante o processo de criação. Mas, para que essa junção aconteça um elemento é necessário: o silêncio. A quietude inventiva almejada por escultores e pintores está em um galpão na Grande Florianópolis. Fica entre as montanhas, longe do trânsito e outras sonoridades urbanas. A galeria ao ar livre está aberta há nove meses e nela, barro, ferro e outras matérias-primas ganham forma e cor seja em mãos de veteranos ou aspirantes a artista plástico.

 
Rosane Lima/ND


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Lara Jeanning no centro de artes e ofícios em São Pedro de Alcântara

A ideia de instalar um espaço para reunir artistas plásticos Inácio Correa acalentou por mais de 20 anos. Projetos, idas e vindas, e muita conversação se deu até que, no dia 8 de dezembro de 2012 foi aberto aos artífices o Centro de Artes e Ofícios de São Pedro de Alcântara. O espaço é mantido pela prefeitura por meio da Casa da cultura e é aberto ao público.  O cenário para trabalhar não poderia ser mais inspirador. Cercado por montanhas o galpão, hoje repleto de criadores e criações, dá ao presidente do Instituto Cultural de São Pedro o sentimento de realização, ainda que parcial. Correa deseja transformar a pequena cidade em uma célula-mãe cultural da região. “Penso em construir uma vila germânica aqui neste vale e espalhar galpões com diversos ofícios pelo município. Além de incluir crianças nas aulas de arte”, ambiciona, enquanto fita as verdes colinas que cercam o atelier. Os planos e sonhos do presidente têm todo o respaldo de uma dos maiores nomes das artes de Santa Catarina: Silvio Pléticos.

Rosane Lima/ND
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A relação de Pléticos com São Pedro de Alcântara começou há mais de 30 anos pelo convite de um aluno

Mestre, porém eterno aluno da arte

Sexta-feira é o dia que Silvio Pléticos deixa as paredes do atelier em casa, em Barreiros, São José, para pintar ao ar livre. Sua relação com São Pedro de Alcântara começou há mais de 30 anos quando um de seus alunos o convidou para pintar em meio à natureza farta daquela localidade. Com o pupilo adquiriu um sítio na comunidade de Santa Filomena. Meses depois comprou a parte do sócio. “Como ‘vivia’ por aqui me ofereci como professor de artes. Meu ofício foi o peixe que ofertei em um prato”, exemplificou, ao recordar os tempos em que propostas culturais eram bem vindas para solidificar o processo de emancipação de São José, ocorrido há 19 anos. Ao andar pelo Centro de Artes e Ofícios Pléticos lamenta os prejuízos que a cultura sofre a cada mudança de gestor municipal. “Não fosse os diferentes graus de importância que cada administrador dá à cultura este espaço estaria aberto há décadas”, observa, já emendando outra sentença: “Quando o homem tem boa vontade, em tudo consegue resultado”.

Entre colegas e pupilos o garoto de 89 anos ensina e aprende. Generosamente divide o refinamento e sofisticação trazidos da Europa, onde nasceu. “Sou o aluno de arte mais velho entre muitas nações. Essa coisa que parece loucura é arte”, afirmou, ao definir o atelier como um local para criar obras e artistas. Ele crê ainda que ninguém que tenha sido introduzido à arte na infância irá delinquir durante a vida. A mente inquieta e fecunda o faz soltar o pincel. Sua atenção se volta para um pedaço de arame. Um ferro que para ele são mais de 40 possibilidades de criação. Seus movimentos são apreciados por outros que como ele veem além da forma original.

Um espaço para buscar o novo

Os francos ensinamentos de Pléticos são motivos de gratidão da artista plástica Maria Cristina Giralt, 42. Com o mestre, como o chama, ela aperfeiçoou a pintura, prática que iniciou aos 12 anos, em Córdoba, na Argentina. Adepta do desenho figurativo ela afirma que ainda não está pronta para se desprender das formas e partir para o abstrato, como facilmente faz o seu mentor. Sob o teto do galpão Cristina está envolvida em um novo ofício. Delicadamente dá forma à sua primeira escultura em tamanho real. É uma mulher que terá as vestes em crochê, confeccionadas com barbante e revestidas com resina. “Ela ainda não tem nome. Espero encontrá-lo antes de terminá-la”, brinca.

 

Cristina mora em Palhoça. Durante a semana, deixa a filhinha de cinco anos na escola, à tarde e se refugia no Centro de Artes. “Às vezes venho com a família para cá no fim de semana”, detalha, ao contar que recuperou o gosto pela pintura após meia década longe das telas. Ela soube da existência do atelier por meio de um amigo.  O espaço se tornou o predileto dela no mundo. “Aqui falamos a mesma artística língua. A troca, a interação com escultores e pintores me faz enxergar outras possibilidades e testar outras propostas”, contou, ao elevar os olhos negros ao alto num suspiro de paz.

As obras de Plínio nascem do silêncio

Quando não está no atelier no Centro Histórico de São José o artista plástico Plínio Verani se encontra entre as 20 pessoas que em períodos alternativos orbitam o Centro de Artes de São Pedro. Os horários são livres. Assim como os estilos de arte e o vento que perpassa a estância de inventividade. Pelas mãos de Verani porções de argila formam o rosto de uma personalidade. O busto, mais um dos tantos espalhados que ele espalhou Brasil, ainda passará pelo molde de isopor e cera antes de receber o bronze e embelezar uma praça. A peça é encomenda. Tem tamanho e prazo de entrega. “Esses trabalhos são necessários para que possamos viver da arte”, diz o escultor, que chegou a pedir demissão do serviço público, se refugiar no mato para materializar os obras que passeavam em seu consciente e inconsciente. “Mandei tudo pro inferno... Mas precisei voltar para sobreviver”, relatou entre risos.

Ao falar sobre o nascimento de uma obra Verani compartilha a música serena que toca em seus grandes fones de ouvido.  “A criação nasce do silêncio mais profundo do âmago. Nasce da busca de si mesmo e do mergulho vertical”, explicou. Ele defende que o tripé da arte se faz do profundo conhecimento técnico; da informação histórica e da busca de novas formas de expressar a dimensão espiritual. “Uma peça pode ser retocada até que o autor sinta que não há mais o que mexer. Nesse momento a obra se torna independente. O artista fica com o vazio como de um pós-parto. Ao criar algo que não seja encomenda a agonia do tempo é somente do autor”, detalhou.

 

Plínio Verani largou emprego público para se dedicar à sua arte

Um novo jardim em São Pedro

A mulher que Cristina confecciona será uma das dezenas de obras que frequentadores do Centro de Artes e Ofícios “plantarão” pelas vias públicas de São Pedro. Nesse trabalho as esculturas são chamadas de flores. “A cidade é perfeita para a implantação de uma galeria ao ar livre”, comemora Verani, ao ver o avanço da cultura na região da Grande Florianópolis. Como ele lembra, Alcântara quer dizer ponte e é isso que os artistas querem construir com as cidades vizinhas. Até o momento uma escultura do artista, a primeira “flor” plantada na cidade, decora a entrada do bairro Cubatão, no acesso ao Centro de Artes entre as silenciosas montanhas.

Mais informações sobre as atividades podem ser obtidas com Daniel Silveira, na Casa de Cultura de São Pedro de Alcântara: 3277-0151.

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